Any Color you like

Quase (Luís F. Veríssimo)

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.


LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac

“Palavras de um outra Vanessa… essa de sobrenome Campos. Gostei e resolvi compartilhar:

Terça
Era tarde e ela tinha que acordar muito cedo. Mas a lua estava alta, o vinho estava bom e ela ia ficando por ali, deitada no sofá, contando quantas janelas o prédio lá da ponta da rua parecia ter. Há dias sonhava com o sal do mar na pele mas vestia o terno e o salto e seguia para o trabalho. Telefone, computador, memorando, jornal, chefes, articulações, pausa para o almoço, telefone, reunião, telefone, um café, telefone, computador, telefone, texto, trânsito, buzina, escada, casa.

Ela queria beleza, aquela do dia a dia. De olhar pela janela e se emocionar. De dizer poesia no meio do nada e ser entendida. Mas ainda estava tudo um tanto árido, como quando morava na cidade de terra vermelha e poeirenta. Escrevia tristezas porque simplesmente não conseguia ser de outra maneira. Não que estivesse triste, daquelas melancolias profundas que fazem perder a vontade de tomar banho e murchar o coração. Era só que os tons de laranja dela agora estavam mais terrosos, menos vibrantes.

Não conseguia explicar a súbita vontade de ficar. O seu natural, era ir. Arrumar as malas, se despedir. Agora queria ficar e estranhava. Dia desses num almoço, disseram a ela que precisava criar raízes. Precisava? Raízes, tronco, galhos, copa frondosa? Deu-se conta que tudo havia mudado. Os amigos, o estilo de vida, de música, de bebida. Pensava que daqui a pouco faria trinta e dois anos e isso era pesado. Ela estava pesada. Mas já era tarde e ela tinha que dormir. Mais uma taça de vinho, quem sabe se inspirasse. Quem sabe quando acordasse seria sábado e ela iria ao mar salgar a vida que andava insossa, mas estranhamente confortável.
// postado por Vanessa Campos”

http://www.assumoospecados.blogspot.com/

The Dark Side of Creativity - Sim ela existe

Essa semana me deparei com uma matéria sobre o lado negro da criatividade extremamente interessante. Amigos criativos, o tema é só para divertir um pouco, não estou querendo dizer que acho que todo ser criativo tem seu lado antiético, aos que se identificarem, divirtam-se :P

A tradução livre para o “abstract” do tema é a seguinte:

Criatividade é uma aspiração comum para os indivíduos, organizações e sociedade. Aqui, no entanto, nós testamos se a criatividade aumenta a desonestidade. Nós propomos que a personalidade criativa e princípios criativos promovem a motivação individual para pensar fora da caixa e que essa motivação maior leva a um comportamento antiético. Em quatro estudos, nós mostramos que os participantes com personalidades criativas que melhor sobressaíram em um teste de medição de pensamento divergente tende a trapacear mais (Estudo 1); que a criatividade disposicional é melhor preditor do comportamento antiético do que a inteligência (Estudo 2); que os participantes que foram preparados para pensar criativamente foram mais propensos a se comportar de forma desonesta por causa da motivação da criatividade e maior capacidade de justificar seu comportamento desonesto (Estudo 3). Finalmente, um estudo de campo de forma construtiva replica esses efeitos e demonstra que os indivíduos que trabalham em posições mais criativas também são moralmente mais flexíveis (Estudo 4). Os resultados fornecem evidência para uma associação entre criatividade e desonestidade, salientando assim um lado obscuro da criatividade.

The Dark Side of Creativity: Original Thinkers Can Be More Dishonest
Authors:Francesca Gino and Dan Ariely


Vou-me Embora pra Pasárgada (Manuel Bandeira)

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.


Desejo do Victor Hugo, ai vai na integra…

Victor Hugo

Desejo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim
Mas se for, saiba ser sem se desesperar
Desejo também que tenha amigos
Que mesmo maus e inconseqüentes
Sejam corajosos e fiéis
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar

E porque a vida é assim
Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo

Desejo depois, que você seja útil
Mas não insubstituível
E que nos maus momentos
Quando não restar mais nada
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante
Não com os que erram pouco
Porque isso é fácil
Mas com os que erram muito e irremediavelmente
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro
Não insista em rejuvenescer
E que sendo velho
Não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor

Desejo, por sinal, que você seja triste
Não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia
Descubra que o riso diário é bom
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.

Desejo que você descubra
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes
E que estão bem à sua volta
Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque assim, você se sentirá bem por nada

Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
“Isso é meu”
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem

Desejo também
Que nenhum de seus afetos morra
Por eles e por você
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar

Desejo por fim
Que você sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor pra recomeçar

E se tudo isso acontecer
Não tenho mais nada a lhe desejar


Lua Cheia (Raul Seixas)

Mulher, tal qual Lua cheia
Me ama e me odeia
Meu ninho de amor
Luar é meu nome aos avessos
não tem fim nem começo
Ó megera do amor!

Você é a vil caipora
Depois que me devora
Ó gibóia do amor!

Negar que me cospe aos bagaços
Que me enlaça em seus braços
tal qual uma lula do mar …

Ó Lua Cheia, veve piscando
os seus óios para mim

Ó Lua Cheia, cê me ajudeia
desde o dia qu’eu nasci

O Sol me abandona no escuro
do teu reino noturno
ó feiticeira do amor

Ouvir o teu canto de sereia
é cair na tua teia
ó fada bruxa do amor

Uhm, negar que me cospe aos bagaços
Que me enlaça em seus braços
Tal qual uma lula do mar

Ó Lua Cheia, veve piscando
os seus óios para mim

Ó Lua Cheia, cê me ajudeia
desde o dia qu’eu nasci


Little Wing

Well, she’s walking through the clouds
With a circus mind,
That’s running wild.
Butterflies and zebras and moonbeams
And fairytales,

That’s all she ever thinks about …

Riding with the wind.

When I’m sad, she comes to me
With a thousand smiles
She gives to me free.

It’s alright, she says,
It’s alright;
Take anything you want from me,
Anything.

Fly on, little wing.

Jimi Hendrix


“É tão misterioso, o país das lágrimas!”


A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado, inteiramente sem jeito, com a redoma no ar. Não podia compreender essa calma doçura.

- É claro que eu te amo, disse-lhe a flor. Foi por minha culpa que não soubeste de nada. Isso não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Trata de ser feliz… Mas pode deixar em paz a redoma. Não preciso mais dela.

- Mas o vento…

- Não estou assim tão resfriada… O ar fresco da noite me fará bem. Eu sou uma flor.

- Mas os bichos…

- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas. Dizem que são tão belas! Do contrário, quem virá visitar-me? Tu estarás longe… Quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras.

E ela mostrava ingenuamente seus quatro espinhos. Em seguida acrescentou:

- Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora!


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